Resumo |
A bandeira contra a corrupção desponta de tempos em tempos no Brasil como um problema público, fortemente controverso e disputado na sociedade civil. Pode ser mobilizado por uma parcela do ativismo para desafiar o establishment político, como aconteceu no período de 2013 a 2018, da chamada primavera brasileira à eleição de Bolsonaro, que é marcado como de ascensão de uma crise da democracia. Para esse recorte temporal específico, o objetivo da tese é analisar o ativismo contra a corrupção no Brasil, no âmbito da sociedade civil, evidenciando as disputas de sentido em torno do tema da corrupção e as consequências para a democracia. A chamada virada societal busca alavancar a sociedade civil como elemento heurístico nos estudos sobre corrupção, considerando-a como um missing point no acervo tradicionalmente institucionalista. A partir da convergência teórica da análise política pré-decisional, do processo político e da filosofia pragmatista, além do enquadramento interpretativo, a tese parte de duas premissas: de que existem movimentos e movimentos os públicos são diferentes, divergentes, conferem significados variados para a corrupção e fazem emergir novas percepções coletivas sobre o problema ; e de que nem todo movimento... o ativismo nem sempre vai romper com a ordem vigente, a depender de como mobilizam sentidos para o problema. A análise empírica promove um mapeamento das unidades de análise, os públicos, que são organizações, movimentos, coletivos e outros grupos que têm o combate à corrupção entre seus objetivos definidos ou que se valem dessa bandeira para promover sua militância política. Foram identificados cerca de 500 públicos atuantes entre 2013 e 2018, em duas arenas a das redes de advocacy e a digital , dos quais foram selecionados oito para a frame analysis. As categorias de análise se inspiram no core frame tasks de Snow e Benford (1988) diagnóstico, prognóstico e motivacional , e são combinadas com três sentidos de tipo ideal formulados para a corrupção republicano, gerencialista e populista. As análises permitiram encontrar (i) duas faces do ativismo anticorrupção, que mobilizam sentidos diferentes para o problema, isto é, as organizações de advocacy e os movimentos de direita; (ii) a preferência do primeiro grupo por mobilizar quadros republicanos corrupção é o avesso da República, cuja culpa é de um adversário histórico, que afeta os cidadãos de direitos; (iii) o enquadramento gerencialista como um ponto de encontro, de conforto normativo e institucional, para os dois públicos; (iv) a preferência dos movimentos de direita pelo quadro populista corrupção tem nome e CNPJ ou é um balaio de indignações, promovida pelos inimigos da nação, que afeta os cidadãos de bem. Esse último (v) gera uma escalada autoritária e violenta no ativismo anticorrupção e fere princípios democráticos importantes, como de igualdade e justiça social, pluralismo político e a legitimidade institucional. |
Palavras-chave |
anticorrupção, ativismo societal, corrupção, democracia., enquadramento interpretativo, gerencialismo, movimentos sociais, populismo, problemas públicos, republicanismo, sentidos, sociedade civil |